A internet como causa e consequência da cultura bélica

Para quem viveu o início da expansão da internet pelo planeta, sobretudo entre os anos de 1995 e 2000 – quando ela ainda estava muito restrita aos computadores de mesa – a entrada no universo digital parecia um convite VIP para uma grande festa global. Todos rumavam para uma confraternização geral entre povos e culturas diferentes, que seriam cada dia mais conectadas, misturadas.

O cenário começou a mudar com a crise econômica especulativa, provocada pela chamada “Bolha da Internet”, em 2000, bem como pelo ataque às Torres Gêmeas em 2001. Mesmo assim, ainda havia uma sensação de que temas caros à civilização, como Educação, Saúde, Filosofia, Tecnologia e Ciências em geral, acabariam por triunfar no longo prazo. A razão venceria a ignorância, a luz venceria as trevas, e o conhecimento livre seria levado a todos os cantos. Vários projetos de liberdade na internet, que pareciam dar suporte ao humano atrás da máquina, como o Sistema Operacional de código aberto “Linux”, ou a Wikipedia, a “Enciclopédia Livre”, ganhavam popularidade entre os usuários.

cyber-warApesar dessa sensação de euforia com o fim da Guerra Fria, e de boas perspectivas para o futuro da humanidade com a internet, é interessante lembrar que ela surgiu justamente como uma resposta tática norte-americana para combater e superar sua arquirrival União Soviética na corrida pela supremacia política, econômica e militar no mundo, no início dos anos 1960. Seu desenvolvimento foi patrocinado pelas Forças Armadas, em paralelo ou em união com entidades civis – sobretudo acadêmicos, pesquisadores e universidades que, tendo seu embrião na Universidade da Califórnia, tiveram a liberdade criativa necessária para que a então denominada ‘Arpanet’ tivesse um ganho de qualidade e crescimento espetaculares.

De acordo com o sociólogo espanhol Manuel Castells, em seu livro ‘A Galáxia da Internet’ (2003, p. 22), “a despeito de toda a visão e de toda a competência que manifestaram em seu projeto, esses cientistas jamais teriam podido dispor do nível de recursos necessário para construir uma rede de computadores e para projetar todas as tecnologias apropriadas. A Guerra Fria forneceu um contexto em que havia forte apoio popular e governamental para o investimento em ciência e tecnologia de ponta, particularmente depois que o desafio do programa espacial soviético tornou-se uma ameaça à segurança nacional dos EUA. Nesse sentido, a Internet não é um caso especial na história da inovação tecnológica, um processo que geralmente está associado à guerra: o esforço científico e de engenharia feito em torno da Segunda Guerra Mundial constituiu a matriz para as tecnologias da revolução da microeletrônica, e a corrida armamentista durante a Guerra Fria facilitou seu desenvolvimento”.

Todo esse investimento financeiro e cultural no conceito da internet acabou, finalmente, por derrotar tecnologicamente a União Soviética que, apesar de possuir recursos, cientistas e universidades de excelente qualidade, estes não tinham a mesma autonomia para desenvolver projetos civis – como seus pares norte-americanos. Deste modo, o excessivo direcionamento de foco para a área militar tradicional, para o “hard power“, pela burocracia soviética, a partir de determinado ponto da corrida pela supremacia mundial, acabou causando mais prejuízos que benefícios. Gorbachev percebeu essa situação de inferioridade tecnológica, que já estava ficando evidente, e procurou reverter o jogo no plano interno – através da política de Perestroika (reconstrução) e da Glasnost (transparência) – bem como no plano externo, estabelecendo o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares com seu par americano, Ronald Reagan. Porém, nada disso foi suficiente para impedir a implosão do sistema soviético de poder, em 1991.

CYBER-WAR-03

Os anos passaram e a internet tornou-se um ativo global por volta de 1995, ganhando independência praticamente total em relação às suas origens militares, e projeção internacional. A cultura do computador pessoal, que já havia tornado-se um fetiche nos anos 1980, cresceu a ponto de tornar-se, na prática, onipresente na vida de grande parte das famílias no planeta. Entretanto, o que havia florescido como um projeto livre, feito por intelectuais, acabou logo tornando-se um espaço privado, dominado por poucas empresas, que souberam posicionar-se no novo jogo do poder que o alcance da internet gerou. Essas entidades tornaram-se gigantescas, como a Google e o Facebook.

Para Sérgio Amadeu da Silveira (2008, p. 39), “a convergência digital em um cenário capitalista impõe a lógica da competição monopolista. Como a convergência ocorre em um ambiente de rede, tende à concentração e à formação de imensos oligopólios”. Neste sentido, o Google tornou-se uma espécie de polvo, através da Alphabet, que abriga inúmeros braços empresariais, como o Android, o Google Maps, e a plataforma de vídeos sob demanda You Tube, que domina a atenção de bilhões de pessoas diariamente, que tanto produzem quanto assistem seu conteúdo.

VOCÊ SABIA?

(Traduzido do site merchdope.com)

O primeiro vídeo do YouTube foi carregado em 23 de abril de 2005.
O número total de pessoas que usam o YouTube – 1.300.000.000.
300 horas de vídeo são enviadas para o YouTube a cada minuto!
Quase 5 bilhões de vídeos são assistidos no Youtube todos os dias.
YouTube recebe mais de 30 milhões de visitantes por dia
Em um mês comum, 8 de 10 entre 18 e 49 anos assistem ao YouTube.
Em 2025, metade dos espectadores com menos de 32 anos não assinará um serviço de TV paga.
6 entre 10 pessoas preferem plataformas de vídeo on-line para transmitir programas de TV
O número total de horas de vídeo assistidas no YouTube por mês – 3,25 bilhões.
10.113 vídeos no Youtube geraram mais de 1 bilhão de visualizações.
80% das visualizações do YouTube são de fora dos EUA.
O número médio de visualizações de vídeos do YouTube para dispositivos móveis por dia é de 1.000.000.000
A sessão média de visualização móvel dura mais de 40 minutos. Isso é mais do que 50% ano a ano.
Usuários do sexo feminino são 38% e usuários do sexo masculino são 62%.
Mais da metade das visualizações do YouTube vêm de dispositivos móveis.

Além da Alphabet, as redes sociais também passaram a dominar quase todo o tráfego de dados na internet, além da atenção dos consumidores. Empresas como o Facebook, que por sua vez controla outras redes como Instagram e WhatsApp, contribuíram para a mudança na forma como as pessoas se relacionam. De acordo com o sociólogo inglês John B. Thompson, é preciso compreender que as novas redes de comunicação têm um impacto gigantesco na sociedade, porque permitem a “criação de novas formas de ação e interação, novos modos de relacionamento e até mesmo de relações sociais” (SILVEIRA, 2009, p. 44).

Desta forma assistimos – sobretudo após o lançamento do Iphone, em 2007, bem como das redes de dados 3G e 4G, entre 2000 e 2010 – não apenas uma mudança de paradigma de uso de uma internet livre, não dominada por qualquer empresa ou país específico, já que agora os usuários da rede mundial trafegam quase que exclusivamente pelas portas e janelas desses grandes oligopólios, como também uma mudança de acesso, tendo em vista que o padrão de consumo deixou de ser o antigo PC e popularizou-se nas mãos dos smartphones.

Essas novas formas de interação entre as pessoas, por sua vez – muitas vezes manipuladas por indivíduos e financiamento de má fé – criaram padrões de comportamento tóxicos no mundo todo. As barreiras culturais, que antes existiam no contato físico e visual entre os seres humanos, tornaram-se tênues, distantes e quase inexistentes. Hoje vociferamos na internet aquilo que não teríamos coragem de dizer cara a cara com ninguém. Os laços mais afetuosos dissipam-se numa nuvem de ódio e más intenções – sentimentos esses capitalizados pelas grandes empresas, e até por governos. O clima bélico parece estar voltando a dar as cartas na internet, agora tanto na sociedade civil quanto militar.

Os Estados Unidos sofreram grandes denúncias de espionagem, e inúmeras instituições e pessoas tiveram suas reputações comprometidas através dos escândalos do “WikiLeaks”. Descobriu-se o potencial da Deep Web e da Dark Web para abrigar criminosos dos mais variados tipos. O site Silk Road, de venda de produtos e serviços ilegais, veio à tona, além de inúmeros outros problemas das catacumbas da rede. Comunidades de ódios espalham-se nas entranhas da liberdade e, como uma cebola, a internet esconde várias camadas de sentimentos e rancores profundos. Valendo-se do pensamento de Freud, a internet hoje turbina uma espécie de mal-estar na sociedade, e especificamente nos indivíduos, causado pelo entorno cultural.

Alguns países aproveitam-se da situação caótica no mundo como, ninguém mais, ninguém menos que a velha Rússia, agora livre das amarras do Partido Comunista. Vivendo um novo período de expansão cultural, tecnológica, política e militar, a Rússia do presidente Vladimir Putin coloca uma pressão ainda maior no cenário geopolítico mundial, ao utilizar a Guerra Híbrida para desestabilizar a declinante hegemonia norte-americana no Ocidente; por exemplo, contratando hackers para fraudar as eleições e espalhar Fake News, ou criando operações de pânico e confusão, levantando falsas bandeiras para conquistar território valioso, como na Crimeia.

the-economist-bolsonaroNo Brasil, a cultura bélica que tem sido forjada com essa “nova internet” também abriu espaço para que a extrema-direita, ou a direita ultra-conservadora, que antes parecia restrita a certos nichos, conquistasse pouco a pouco mentes e corações do povo brasileiro, como num campo de batalha. Partes mais conservadoras do Poder Judiciário e o Ministério Público, que por si mesmas já trazem uma cultura mais “arcaica” e “imperial” em seus quadros, também surfaram nessa onda. Utilizando-se do poder e liberdade conquistados no período democrático, arquitetaram, de forma mais ou menos consciente, uma espécie de Lawfare, ou Guerra Jurídica, supostamente em nome do combate à corrupção, mas que objetivaram principalmente destruir a reputação de adversários políticos e militantes de esquerda – tudo isso com ligações suspeitas a entidades norte-americanas.

Tudo isso ganhou contornos de uma enorme guerra cultural no Brasil, e a internet potencializou a construção de uma imagem fortemente ideologizada de antipatia – quando não ódio – aos poderes constitucionais e partidos tradicionais. Disparos de notícias falsas e memes conspiratórios, sobretudo através do Facebook e do WhatsApp, atingiram em cheio o peito de muitos eleitores que, por sua vez, acabaram elegendo uma resposta radical (e virtualmente equivocada) para os problemas criados pela desconfiança cultural, social e institucional nos valores civilizados. O peão Jair Bolsonaro é uma espécie de canto do cisne da cultura bélica pós-moderna, que nasceu com a Internet durante a Guerra Fria e esperneia-se agora novamente, revivendo fantasmas da tortura e do comunismo, bem como incitando uma nova guerra fratricida na América do Sul, entre brasileiros e venezuelanos, à mando dos reis e das rainhas no tabuleiro de xadrez das redes de poder globais.

Escrito por Tiago Masutti – Pós-graduando em História Cultural pela Claretiano (2019) e graduado em História pela Uniasselvi (2015).

DICA CULTURAL

Guerra Cibernética: A próxima ameaça à segurança e o que fazer a respeito
Disponível em: https://amzn.to/2JHWKcW

livro-guerra-ciberneticaSinopse extraída da Amazon: No livro, Richard Clarke apresenta um panorama surpreendente — e, ao mesmo tempo, convincente — no qual o uso de armas cibernéticas é uma questão concreta a ser considerada nas ações de Defesa Nacional. Como se sabe, computadores — e dispositivos computacionais — controlam boa parte das atuais infraestruturas civis e militares, incluindo sistemas críticos para o bem estar da sociedade e sistemas que suportam a adequada condução de ações militares. Ao usar armas computacionais que causam impacto em tais sistemas, o “inimigo da nação” pode comprometer o bom andamento de ações militares — ofensivas ou defensivas — e pode, ainda, imprimir ações que causem grande impacto na população civil e no funcionamento da sociedade. Clarke mostra que ações desse tipo, envolvendo o uso de computadores e o ataque a sistemas computacionais, já vêm sendo empregadas em iniciativas caracterizadas como “ações de Estado”, tanto em tempos de paz, quanto no campo de batalha. Dessa forma, é fundamental, ao mesmo tempo, entender as implicações diplomáticas desse novo tipo de arma, e estabelecer limites quanto a sua utilização – para defesa, e para ataque.

FONTES RECOMENDADAS

https://amzn.to/2Wb8RAu
http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-regionais/norte/4o-encontro-2016/gt-historia-da-midia-digital/da-guerra-as-emocoes-historia-da-internet-e-o-controverso-surgimento-do-facebook/view
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/03/na-cia-bolsonaro-se-encontrou-com-diretora-acusada-de-tortura.shtml
https://jornalistaslivres.org/moro-lava-jato-e-interesses-dos-eua/
https://www.conjur.com.br/2018-fev-07/fbi-ampliou-presenca-brasil-antes-lava-jato-ficar-famosa
https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/atualidades/lawfare.htm
https://www.conjur.com.br/2018-dez-17/opiniao-lawfare-militar-politico-comercial-geopolitico
https://www.newyorker.com/magazine/2018/10/01/how-russia-helped-to-swing-the-election-for-trump
https://www.ce.uw.edu.pl/pliki/pw/2-2016_hajduk.pdf
https://www.e-ir.info/2018/06/17/the-soviet-origins-of-russian-hybrid-warfare/
http://www.periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/viewFile/18796/30941
https://merchdope.com/youtube-stats/
https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/3396/1/INTERNET.pdf
http://cv.udl.cat/cursos/elsmitjans/t1/docs/internet2.pdf
http://myegoo.s3.amazonaws.com/egoo/e223157/myegoo_castellsdimensionculturalinternet_o.pdf
https://www.monografias.ufs.br/handle/riufs/1360
https://www.redalyc.org/html/1670/167017772004/
https://bit.ly/2JLVvJN
http://books.scielo.org/id/22qtc/pdf/pretto-9788523208899-03.pdf
https://www.redalyc.org/html/3996/399641242004/
https://bit.ly/2URohJI
https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2018/02/o-lawfare-neoliberal-e-o-sacrificio-de-lula-por-carol-proner/

FONTES IMAGENS

https://media.defense.gov/2016/Aug/07/2001593972/-1/-1/0/131023-A-ZZ999-999 .jpg
https://www.causaoperaria.org.br/um-fascista-vira-lata-na-presidencia-da-republica-bolsonaro-quer-base-militar-dos-eua-no-brasil/
https://torange.biz/photofx/172/8/war-cyber-crime-digital-background-172950 . jpg
https://airman.dodlive.mil/files/2018/12/170603-F-LW859-002 . jpg
https://abrilexame.files.wordpress.com/2018/09/vvovovovovov . jpg

Anúncios

Nada se cria, tudo se inventa: Shakespeare e os referenciais

As letras, as palavras, as ideias estão aí. O que fazemos com elas e a forma que utilizamos é que as tornam interessantes, tais quais as obras de William Shakespeare. Se a própria convenção admite que o Renascimento surge para “resgatar” valores da Greco-Romanos, temos de supor que os argumentos de ambos os momentos são os mesmos ou muito próximos uns dos outros.

Com Shakespeare, que Harold Bloom afirma ter “inventado o humano”, não ocorre de forma diferente. O dramaturgo inglês lia as Metamorfoses de Ovídio, além do poeta Petrarca (vide Mercucio em Romeu & Julieta: “Ro sem meu tem rosto de arenque seco. Ah, carne, carne, estás peixificada. Vai deslizar em versos de Petrarca”. Escrevera sobre os Romanos, como nos é visível em Antônio & Cleópatra, e sobre os Gregos, notório em Sonho de uma noite de verão. E também situara suas tramas sobre as cidades italianas de Verona e Veneza (esta última, na qual se passa Otelo). Resumindo, sua cultura era ampla, chegando até mesmo a flertar com o Novo Mundo em Noite de Reis.

Aos que acusam-no de plágio, convém rebater que isso é no mínimo um anacronismo, posto que essa ideia de “copyright” é muito posterior aos tempos de ShakespeareRomeu & Julieta teve alguma ou grande influência nos textos greco-romanos. Principalmente no que concerne à noção de destino. Em vários momentos da peça, as personagens têm maus presságios, ainda que tenham vaga esperança que tudo acabará bem.

Tragédia dos Amantes de Verona, porém, fora escrita anos antes do bardo, contendo as mesmas personagens e a mesma trama, com pequenas alterações. Romeu & Julieta talvez seja a “adaptação” mais descarada que Shakespeare fez de um outro texto. Ainda que não se saiba exatamente qual a história lida pelo bardo, anteriormente já existiam versões de Luigi da Porto (Amanti Veronesi) e Matteo Bandelo com o seu Romeu & Julieta em prosa. Até mesmo os nomes das duas famílias rivais já eram conhecidos literariamente muito antes da tragédia shakespeareana.

Evidentemente que o gênio do inglês de Stratford não deixou por menos e transformou seu texto numa desconcertante obra de arte, misturando trechos rimados e prosa poéticaShakespeare também concentrou a ação em poucos dias, para que o amor desmedido dos jovens de Verona fosse ainda mais intenso.

> Esta postagem foi uma colaboração do jornalista e escritor Evandro Duarte. Para ler outros textos deste autor, confira seu blog Crônicas do Evandro ou siga-o no Instagram.

O trabalho do cronista

A certidão de nascimento do Brasil é escrita pelas mãos de Pero Vaz de Caminha na Carta a El Rey D. Manuel. Em 1500, inaugurava-se a produção literária nas terras tupiniquins com o que poderíamos chamar de primeira crônica brasileira. Evidentemente, a crônica de Caminha serve a um momento histórico e deve ser entendida como tal.

E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi; e, se algum pouco me alonguei, Vossa Alteza me perdoe, que o desejo, que tinha, de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelas minúcias”. Tal qual fazem os cronistas de hoje, o escrivão do Descobrimento também estava preocupado em registrar alguns detalhes e recortes específicos do cotidiano.

Como criação jornalística, a crônica não se enquadra na categoria de ficção e tampouco de gênero literário. No jornal impresso, sua realização, em geral, dá-se de um dia para o outro. Tão rápido é o nascimento da crônica quanto sua permanência. Afinal, segundo Antônio Cândido, esta “não tem pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa”.

A espontaneidade do texto da crônica dá o equilíbrio necessário para a união do literário com o coloquial. A abordagem aparentemente descompromissada da crônica não implica em textos medíocres. Escrever de forma simples, nesse caso, torna-se tarefa árdua para esses escritores do cotidiano chamados cronistas. Desta forma, cabe ao cronista “ser leve, nunca vago; íntimo, nunca intimista; claro e preciso, nunca pessimista. Sua crônica é um copo d’ água em que todos bebem, e a água há que ser fresca, limpa, luminosa para a satisfação do real dos que nela matam a sede”, nas palavras do poeta Vinicius de Moraes.

As modalidades e tipos da crônica são os mais variados possíveis. A escritora Ilka Laurito destaca a crônica da crônica, que não raro traz o cronista falando sobre seu próprio ofício e as dificuldades encontradas. Enquanto o catarinense Lauro Junkes comenta sobre outros gêneros crônicos, quais: – A crônica narrativa cuja forma é semelhante ao conto, com uma história e um ou mais personagens. – A crônica lírica, quando o autor procura dar vazão aos sentimentos, é a mais subjetiva de todos os tipos. – A crônica-comentário em que fatos servem de pretextos para elucubrações existenciais. – E ainda a crônica filosófica ou metafísica, que é um exercício de reflexão sobre os significados das coisas e as relações humanas.

trabalho do cronista é escolher o mínimo dando-lhe a feição do máximo. Não é simples, mas pode ser bem divertido.

> Esta postagem foi uma colaboração do jornalista e escritor Evandro Duarte. Para ler outros textos deste autor, confira seu blog Crônicas do Evandro ou siga-o no Instagram.

Antropologia fora da caixa: 5 tipos de nativos que ninguém ousa comparar

Quando falamos em História, sobretudo a História da América, é muito comum nos depararmos com o contato entre povos nativos e povos invasores. No caso do Novo Mundo, os ameríndios foram não apenas conquistados, como amplamente exterminados ou aculturados no seio do domínio colonial.

Certamente você já ouviu falar nos nativos americanos e sua cultura ancestral, seus mitos e lendas, suas tribos espalhadas por todo o continente e o golpe devastador sofrido com a chegada dos europeus. Mas você já tinha ouvido falar em nativos australianos, nativos indianos ou, até mesmo, nativos japoneses?

Nessas e em outras partes do mundo também temos exemplos de populações nativas, em situação historicamente semelhante à dos índios americanos, ou seja: etnias antecessoras e pioneiras em determinado local, que foram posteriormente surpreendidas pela chegada de colonizadores de outra etnia, superiores em número, em persistência nas invasões ou em tecnologia. Estes foram então progressivamente prevalecendo sobre os povos mais antigos.

Em muitos casos, os grupos humanos originais eram completamente diferentes dos novos grupos conquistadores, que acabaram por levar os povos mais antigos à pulverização ou isolamento geográfico. As diferenças eram não apenas culturais, como na língua e no modo de viver, mas também na cor da pele e dos olhos. Vamos conhecer alguns exemplos e um pouco da história desses nativos extraordinários?

1 – Bascos

O povo basco vive na Europa, confinado na divisa atlântica entre a Espanha e a França. Sua origem remonta há milhares de anos e já habitavam o continente antes da chegada dos povos Indo-Europeus (estes originários das estepes do centro da Ásia, localizadas nas atuais Rússia e Cazaquistão). O mais provável é que os bascos sejam descendentes de povos agricultores que se misturaram com os caçadores-coletores da Europa, por volta de 3500 a 1500 a. C.

O fator mais característico desse povo autóctone é sua língua, chamada por seus nativos de Euskara, totalmente distinta das línguas latinas dos países ao redor. Enquanto o francês e o espanhol possuem origem romana, o basco é uma língua isolada, ou seja, uma linguagem que, supostamente, não tem parentesco com nenhuma outra no mundo – muito embora um estudo recente o tenha ligado ao idioma africano Dogón, falado no Mali, que pode estar relacionado, surpreendentemente, à origem do basco.

Quando os indo-europeus – que deram luz à maioria dos povos iranianos, indianos e europeus modernos através de suas migrações pela Eurásia – dominaram a Europa por volta do ano 1000 a. C., os bascos ficaram confinados numa pequena região e conseguiram manter sua língua preservada até os dias atuais.

O chamado País Basco ficou famoso pelas ações do ETA, grupo nacionalista basco que renunciou recentemente à luta armada pela independência. As principais cidades da região atualmente são Bilbau e Pamplona e o total de bascos vivendo entre a França e a Espanha é algo perto de 2,7 milhões de pessoas. Em Euskara, Nahiago dut Frantziako ogia significa: -Eu prefiro pão francês.

2 – Dravidianos

Os dravidianos são povos que atualmente habitam o sul da Índia e o Sri Lanka, mas que provavelmente já habitaram uma área bem maior no passado remoto, antes das migrações indo-arianas (de origem comum aos indo-europeus) para o sub-continente indiano. A civilização do Vale do Indo, ou civilização Harapense, que floresceu entre 2600 e 1900 a.C. e ficou famosa pelas ruínas de Harappa e Mohenjo-Daro, localizadas na divisa entre Índia e Paquistão, era povoada sobretudo por dravidianos.

Especula-se que a queda dessa civilização dravidiana ocorreu simultaneamente à chegada dos indo-arianos ao local, que foi de alguma forma semelhante às invasões bárbaras ocorridas no coração do Império Romano, ocorridas mais de 2 mil anos depois. Existem resquícios de populações dravidianas no Paquistão, chamadas de Brahui, e acredita-se que os dravidianos podem ter sido empurrados para o sul da Índia pelos indo-arianos, num movimento que iniciou em aproximadamente 1800 a.C, dividindo as duas populações dravidianas ao meio. Outra hipótese é de que os Brahui teriam migrado para o Paquistão já na Idade Média.

De qualquer forma, ao contrário dos indo-arianos – que hoje habitam toda a metade norte da Índia – os dravidianos têm a pele escura e os olhos negros. Estes formaram importantes culturas no sul da Índia, como o Império Chola entre os anos 800 e 1200 d.C., que dominou a costa leste indiana e estendeu sua influência sobre as atuais Indonésia e Malásia, estabelecendo também rotas de comércio com a China.

Embora hoje sejam mais de 200 milhões de pessoas – que em termo indianos não significa muito – podemos dizer que os dravidianos são a população mais original a sobreviver no sub-continente indiano, com uma cultura muito anterior aos textos sagrados dos Vedas e à formação da religião hindu pelos subsequentes colonizadores (ou invasores) indo-arianos. Se há um país no mundo que pode ser chamado de Melting Pot, este é a Índia, um lugar sincrético desde suas origens milenares. Principais cidades no sul da Índia hoje: Chennai (antiga Madras) e Madurai, com aproximadamente 8 milhões e 1,6 milhões de habitantes, respectivamente.

3 – Aborígenes Taiwaneses

sistine-art-02Os primitivos habitantes da ilha de Taiwan (ou Formosa), próxima à moderna China continental, eram povos austronésios ou, para melhor compreensão, pessoas com aparência física similar aos polinésios, que hoje habitam as milhares de ilhas no vasto interior do Oceano Pacífico.

Estudos ligam a origem dos austronésios ao interior da China, mais precisamente à parte sul do país, de onde teriam emigrado logo após o avanço da dinastia Han sobre o sudeste asiático, por volta do segundo século antes de Cristo, forçando assim os austronésios definitivamente rumo ao mar. Outros pesquisadores sugerem que a origem dos austronésios se deu na própria ilha de Formosa.

Mesmo assim, calcula-se que os austronésios que deram origem aos modernos aborígenes Taiwaneses vivem nesta ilha há possivelmente mais de 5 mil anos. Hoje sua população não ultrapassa 600 mil habitantes, em uma cultura de certa forma distante dos colonizadores modernos da ilha de Formosa. Além disso, enquanto os descendentes de austronésios têm a pele escura e falam uma língua totalmente distinta, os chineses de Taiwan (da etnia chinesa Han) possuem a pele mais clara, os olhos mais puxados e falam mandarim.

Os aborígenes taiwaneses viveram isolados em Taiwan por milênios, até que os Han também passaram a colonizar a ilha, há cerca de 400 anos. Empurrados pela pressão social dos Han, hoje os indígenas taiwaneses vivem principalmente nas montanhas do país, de certa forma isolados ou aculturados nas cidades, enfrentando inúmeras barreiras culturais e lutando para manter suas várias línguas nativas ainda vivas.

4 – Ainus

Nos dias de hoje, pensar em Japão é o mesmo que pensar em olhos puxados, samurais, templos budistas e chás. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo, em um passado remoto, há mais de 2 mil anos, em que o arquipélago japonês era habitado principalmente por uma população proto-mongol de traços mais semelhantes aos europeus e austronésios, com muitos pelos e cabelos grossos, olhos grandes e pele variando de clara a bronzeada.

Esse povo antigo – identificado com a cultura Jomon da pré-história japonesa e com a atual população Ainu – tem origens ainda incertas, provavelmente na própria Ásia. Todavia, especula-se que tenha, há milhares de anos, se espalhado por vários locais do oriente e deixado traços genéticos em lugares tão variados quanto o Tibete, as Ilhas Andaman (próximas à Índia), a ilha de Sacalina e a península de Kamchatka (na atual Rússia), além do próprio Japão.

Enquanto isto, os japoneses modernos, da etnia dominante Yamato, vieram provavelmente da região do Lago Baikal, próxima à atual Mongólia, para colonizar as ilhas próximas à costa da Coreia, incluindo Kyushu, Shikoku, Honshu e Hokkaido: o atual Japão. Quando os Yamatos chegaram para invadir e colonizar o arquipélado, este já era habitado pelos Ainus, que foram progressivamente sendo expulsos para o norte das ilhas.

Durante o final da antiguidade e início do período medieval japonês, por volta do ano 1000 d.C., surgiu entre os japoneses Yamato a figura do Xogum, um chefe militar encarregado de cuidar também da autoridade civil do país, sobrepondo-se os poderes do imperador. É importante destacar porém que, em sua origem, o xogum era apenas um general destacado pontualmente para uma importante missão entre os Yamato: intimidar, subjugar, expulsar ou exterminar povos considerados bárbaros, que então já viviam ao norte de Honshu, a principal ilha japonesa. Estes eram os Emishi, relacionados historicamente aos Ainus, e o termo xogum deriva de Seii Taishogun, ou Grande General Apaziguador de Bárbaros. Atualmente os Ainus encontram-se em um número muito reduzido, de aproximadamente 25 mil pessoas, confinadas sobretudo na ilha de Hokkaido.

5 – Aborígenes Australianos

Pode-se afirmar que os aborígenes australianos certamente estão entre os povos mais antigos do mundo. Suas origens remontam há mais de 70 mil anos, quando os primeiros seres humanos modernos deixaram a África em direção à Ásia através de pequenas embarcações ao longo da costa,  ou possivelmente sobre “pontes de terra” – numa época em que os níveis dos oceanos eram mais baixos – até chegarem à Austrália há cerca de 50 mil anos.

Quando os invasores europeus dos séculos XVIII e XIX chegaram ao continente australiano, se depararam não apenas com uma fauna, mas também com uma etnia humana relativamente intocada há dezenas de milênios, quase totalmente preservada de influências externas – exceto por possíveis interações genéticas com povos de Papua Nova Guiné e, de acordo com alguns estudos, migrações vindas da Índia por volta de 2 mil anos a.C. Os aborígenes australianos contavam, à época, com uma população de aproximadamente 500 mil pessoas, número semelhante ao atual – muito embora os colonos britânicos tenham quase exterminado sua cultura ancestral com atos de violência e racismo – quando não genocídio puro.

No passado, os aborígenes distinguiam-se entre si em várias “nações”, subdivididas em inúmeros clãs, e falavam cerca de 250 línguas. Hoje, apenas 13 de suas línguas maternas não estão ameaçadas de extinção. Sua população pode ter ultrapassado a marca de 1 milhão de habitantes em todo continente australiano em determinado período histórico, e há indícios de que os aborígenes australianos faziam comércio com pescadores nativos das ilhas da Indonésia.

A província de Queensland, ao nordeste do continente, abrigou historicamente quase 30% da população aborígene da Austrália, enquanto as províncias mais ao sul, incluindo a ilha da Tasmânia, concentram atualmente menos de 15% do total. Embora, tecnologicamente, os aborígenes ainda permanecessem na idade da pedra quando os Europeus chegaram, a influência cultural dos nativos está presente até os dias atuais no país da Oceania – não apenas no uso do bumerangue, tradicional arma aborígene, mas também na música, pintura e outras artes.

Tiago Masutti – Licenciado em História pela Uniasselvi (2015) e pós-graduando em História Cultural pela Claretiano (2019). Autor do artigo Pratos Limpos. Vencedor do Prêmio Miró Literatura 2014 e Prêmio Wattys 2018 – este último pelo romance Flores e Fúrias, disponível na Amazon e Wattpad. Corroteirista do curta-metragem Noite. Escritor do eBook de contos O Cigarro tinha gosto de Beijo. Editor e colunista do site Centopeia. Também sou criador e podcaster dos programas História Cast e Centopeia Falante, além de coapresentador do Centopeia TV no You Tube. Produzo conteúdo sobre História, Cultura e Literatura – em formato de textos, imagens, áudios ou vídeos. Caso goste do meu trabalho, convido você a inscrever-se nos meus canais de divulgação, deixar seu like, escrever comentários e compartilhar meu perfil com seus amigos. Siga-me nas redes sociais! (@tiagomasutti; @centopeiasite)

Taklamakan: um deserto repleto de histórias

O lugar para onde quem vai não volta. Esta é uma possível tradução para a palavra Taklamakan, o nome de um dos locais mais secos e remotos do planeta Terra. Encravado no meio da Ásia, este deserto fica na antiga Rota da Seda, cercado por altas montanhas por todos os lados, incluindo o Himalaia, ao sul. Uma gigantesca depressão de pura areia e dunas, com mais de 300 mil quilômetros quadrados de área, próxima à fronteira oeste da China.

Aqueles que adentram o deserto, sozinhos ou acompanhados, caso não possuam bom preparo, físico, psicológico e estrutural (com bússolas, mapas, registros precisos, comida, roupas, camelos e água, por exemplo), correm um risco de morte muito alto. Essa aparentemente inóspita terra que, devido ao seu isolamento, possui temperaturas extremas – que vão de 20 graus Celsius negativos, no inverno, a 40 positivos no verão – já abrigou várias cidades esplendorosas em seu interior, como Loulan, Miran, Qargan e Niya.

Ao longo dos últimos dez mil anos, o derretimento das geleiras nas montanhas circundantes formou alguns rios importantes que alimentaram a região do Taklamakan – que nem sempre foi tão seco. Algumas porções de rios, entre eles o Rio Tarim, continuam fluindo sobre o deserto até hoje, formando uma das maiores bacias endorreicas do mundo. Mas, entre aproximadamente 3 mil a. C. e 1000 d. C., as evidências arqueológicas e geológicas indicam que as águas eram mais abundantes e os rios corriam por dezenas de quilômetros para dentro da terra árida.

Com a diminuição da quantidade de gelo derretendo, ao longo de milhares de anos, os rios foram secando, e as cidades foram sendo abandonadas, provavelmente abandonadas ao longo de séculos. Hoje, esses rios que sobreviveram correm por poucos quilômetros no interior das areias; mas ainda podemos ver, em imagens de satélite, o quanto sua extensão alcançava séculos atrás. Na franjas de centenas de quilômetros de dunas, seria quase surreal afirmar que, lá no meio do deserto, estão soterrados os restos de ricas cidades, das quais sobreviveram apenas fragmentos de muros, canais, paredes, altares, pinturas, instrumentos, alimentos e, até mesmo, múmias de corpos, conservados naturalmente na aridez da região.

Areia Global
taklamakan-satellite
O Taklamakan abriga o sincretismo sócio-cultural desde seus primórdios. Há muitos séculos, antes mesmo do nascimento de Cristo, foi habitado por um povo Indo-Ariano – de características físicas e linguísticas semelhantes aos russos ou iranianos, por exemplo – que chamaram-se Tocarianos e chegaram a deixar registros escritos de sua história. Posteriormente, também vieram outros povos, como: gregos e macedônios, oriundos do exército de Alexandre Magno; conquistadores chineses e tibetanos; nômades mongóis e uigures; e, até mesmo, viajantes europeus medievais, que atravessaram o deserto e suas cidades-estado independentes, até chegarem na China – isto antes que as grandes navegações tornassem possível o comércio marítimo a grandes distâncias.

Trazido da Índia, o budismo predominou entre os comerciantes e agricultores do deserto, durante a maior parte de sua História, ao longo dos templos e das cidades encravadas nas rotas ao norte e ao sul do Taklamakan. No século VII desta era, o monge budista Xuanzang, vindo da China, deixou relatos sobre sua visita ao local. Em viagens exploratórias, equipes francesas lideradas pelo arqueólogo Aurel Stein, já no início do séc. XX, percorreram o leito seco dos rios e foram os primeiros ocidentais a explorar a região na modernidade, revelando inúmeras relíquias das fantasmagóricas cidades enterradas nas ampulhetas do tempo, ou melhor, as areias do deserto. Outras equipes estrangeiras também visitaram o Takamaklan mais recentemente, ao longo dos anos 1990 e 2000, e há documentários no You Tube que mostram essas novas viagens.

No sentido inverso, levados pelos ventos, os pequenos grãos de silício, formados pela areia do Taklamakan, viajam todo o Oceano Pacífico e visitam até mesmo a Califórnia, na Costa Oeste dos Estados Unidos. Atualmente, o governo chinês já construiu inclusive uma estrada asfaltada que corta o deserto de norte a sul, promovendo o rápido encontro das cidades no entorno das dunas sem fim.

taklamakan-desert-highwayA série em quadrinhos “Sandman”, de Neil Gaiman, retratou o deserto, de forma literária, no número 39, quando o viajante medieval Marco Polo supostamente se perde por lá. Dois curiosos romances, em inglês no site da Amazon, possuem o deserto como palco principal: um chama-se “Taklamakan – The Land of no Return”, de John Schettler, e conta a história de um comerciante chinês de especiarias que perde-se nas ruínas de antigas cidades e envolve-se numa disputa entre chineses e tibetanos no ano 757. O outro, “Legend of the Last Vikings – Taklamakan”, de John Halsted, foi finalista do Livro do Ano da ForeWord Magazine, narrando a fantástica viagem de um pequeno grupo de Vikings, no ano 1066, que busca aventuras para muito além do Império Bizantino e acabam encontrando tribos ocidentais perdidas na Rota da Seda.

Aos leitores, cuidado: uma longa viagem mística, em busca de paz e autoconhecimento, a um dos buracos mais inóspitos do mundo, no meio da Ásia, pode ser um oásis na jornada para a meditação e o revigor – tal qual a passagem de Cristo no deserto, do qual finalmente voltou plenamente consciente de quem era. Mas aqueles que, sem rumo, atravessam as Montanhas Celestiais, ao norte da bacia hidrográfica do Tarim, e apaixonam-se pelo Taklamakan, não voltam jamais. Não há nenhuma referência. As areias são movediças. É melhor saber onde está pisando…

Tiago Masutti – Licenciado em História pela Uniasselvi (2015); pós-graduando em História Cultural pela Claretiano (2019). Autor do artigo acadêmico Pratos Limpos. Corroteirista do curta-metragem Noite. Editor e colunista do Centopeia. Podcaster e apresentador do Centopeia TV. Escritor do e-Book de contos O Cigarro tinha gosto de Beijo. Vencedor Prêmio Miró Literatura (2014) e Prêmio Wattys (2018), este último pelo romance Flores e Fúrias, disponível na Amazon.

Curdos e Ciganos: introdução a dois povos com a letra “C”

Muito embora nosso costume divida os povos do mundo em apenas 3 etnias genéricas (brancos, negros e amarelos), entre os 7 bilhões de habitantes humanos dessa aldeia global podemos encontrar origens muito distintas e histórias muito ricas. São pessoas com um valor intrínseco muito grande, não apenas por ajudarem decisivamente na composição do mosaico antropológico formado ao longo de milhares de anos em todos os continentes, mas também por demonstrarem grande exemplo de resistência cultural.

Entre esses exemplos, podemos citar inúmeros povos, como os ciganos e os curdos. Hoje vamos conhecer um pouquinho de sua História.

CURDOS

kurdistan-mapOs curdos são povos de origem indo-européia relacionados aos iranianos. São cerca de 30 milhões de pessoas curdas vivendo no mundo hoje: 14 milhões na Turquia e 16 milhões no Iraque, Síria e Irã. Também existem descendentes de curdos em pequenas comunidades na Europa e na América do Norte. Na Turquia e no Iraque a população curda chega a cerca de 20% do total desses países.

Sendo uma espécie de “povo apátrida” em sentido amplo, ou seja, uma etnia sem país ou nação própria, os curdos estão submetidos aos desmandos e preconceitos históricos onde vivem, sobretudo na Turquia, que teme perder qualquer parte de seu território, de maioria étnica turca, para os curdos. Culturalmente, a região que ocupam ao norte do Iraque e leste da Turquia, entre outras áreas, é chamada de Curdistão. Os curdos lutam pela independência de seus territórios e seu povo foi muito importante na luta contra o autodenominado Estado Islâmico.

A língua curda é um ramo da língua iraniana e divide-se em pelo menos 3 dialetos principais – que são praticamente ininteligíveis entre si, porém são considerados partes da mesma língua devido à questão de unidade cultural entre os curdos. A maioria dos curdos fala também a língua oficial dos respectivos países onde vivem; desta forma quase todos são bilíngues.

O Islamismo Sunita é a principal religião professada entre os curdos, mas alguma parte deles também pratica o Cristianismo ou religiões regionais como o Zoroastrismo, o Yarsanismo, e o Yazidismo. Geralmente as mulheres curdas são bem-vindas nos mesmos eventos sociais que os homens, de forma culturalmente mais semelhante aos muçulmanos europeus do que aos muçulmanos do seu entorno geográfico no Oriente Médio.

CIGANOS

protesto-contra-discriminacao-de-ciganos
Vagando desde a Índia rumo ao Ocidente por 1500 anos, o Povo Rom – mais conhecido como Cigano – também é uma espécie de “coletivo apátrida”. Melhor explicando, são nômades que vivem em tendas ou casebres e deslocam-se em carroças há dezenas de gerações.

A cultura cigana, muito embora tenha se incorporado de alguma forma pelos diversos países do Oriente Médio, Europa e América nos quais o Povo Rom viveu ao longo dos séculos, foi também muito marginalizada em todas as regiões. Quando os primeiros ciganos chegavam a alguma cidade ou país novos, primeiro lhes era oferecido uma passagem segura. Porém, aos poucos, foram sendo confinados em guetos, ao mesmo tempo em que leis obrigavam que os Rom se convertessem à cultura local.

sistine-art-02Vários genocídios ou limpezas étnicas contra os ciganos foram cometidos ao longo da História, principalmente durante o período nazista no séc. XX, no qual eles foram deportados ou exterminados. Até mesmo após a Segunda Guerra Mundial os ciganos ainda sofreram perseguições ou discriminações em alguns países liberais e democráticos, como a Suécia.O Povo Rom tem origem indo-ariana e os registros históricos e linguísticos apresentam seu lar original como sendo o norte da atual Índia. É possível que os ciganos fossem, a princípio, artistas das classes mais baixas ou, segundo outra hipótese, moradores ou militares derrotados numa guerra com um sultão vizinho, que foram posteriormente deportados para o Império Bizantino ou fugiram de suas terras. Para sobreviver por onde iam, tornaram-se famosos como adivinhos e cartomantes.

Muitos ciganos conservam sua religião ancestral Hinduísta, porém a maioria deles tornou-se cristã ou muçulmana. Muitos aspectos da vida cultural dos ciganos dividem-se em puros e impuros e, assim como para boa parte dos indianos, para o Povo Rom o poder familiar e social deriva da autoridade masculina – as mulheres devem casar virgens, ganhando mais respeito na medida em que forem envelhecendo e procriando. Atualmente os ciganos constituem uma população de até 20 milhões de pessoas em todo o mundo; entretanto, temendo a repressão e preconceito, muitos não se identificam como tais.

Tiago Masutti – Licenciado em História pela Uniasselvi (2015); pós-graduando em História Cultural pela Claretiano (2019). Autor do artigo acadêmico Pratos Limpos. Corroteirista do curta-metragem Noite. Editor e colunista do Centopeia. Podcaster e apresentador do Centopeia TV. Escritor do e-Book de contos O Cigarro tinha gosto de Beijo. Vencedor Prêmio Miró Literatura (2014) e Prêmio Wattys (2018), este último pelo romance Flores e Fúrias, disponível na Amazon.

Inferno negro no Jardim do Éden

Basra (em português, Baçorá). Sul do Iraque. Situada no encontro dos grandes rios Tigre e Eufrates, poucos quilômetros antes destes desaguarem no Golfo Pérsico, esta cidade de 1,5 milhão de habitantes foi fundada como uma base militar no ano de 636 d. C., durante o Califado Ortodoxo surgido logo após a morte do profeta Maomé, império político que dominou todo o Oriente Médio.

basra-mapaEsse é um dos locais com os verões mais quentes no planeta, com as temperaturas durante o dia superando a marca dos 50 graus Celsius. Curiosamente, também é supostamente um dos locais de origem do mito religioso do Jardim do Éden, onde há fartura de águas, pântanos alagados e terras cultiváveis para colheitas. De lá, segundo o relato bíblico, Adão e Eva teriam sido expulsos do Paraíso para vagarem pelo mundo. Um de seus descendentes, Cam, filho de Noé, teria sido amaldiçoado por Deus.

Século XXI. Um grupo de crianças e homens negros aproveitam a oportunidade. Os carros, sujos pela areia do deserto que circunda a região, são um dos únicos ganha-pães possíveis para estes distintos moradores de Basra, que disputam a oportunidade de lavar veículos pertencentes aos “homens livres”, ou seja, os árabes brancos.

A cultura iraquiana é extremamente derivada do Islamismo e da divisão tribal entre religiões. Minorias cristãs e brancas podem ser reconhecidas de alguma forma na sociedade. Negros islamizados são geralmente reconhecidos como iguais pelas autoridades. Irmãos muçulmanos. Mas a verdade é muito mais cruel.

jan_brueghel_de_oude_en_peter_paul_rubens_-_het_aards_paradijs_met_de_zondeval_van_adam_en_evaApós o fim do Califado Ortodoxo, em 661, sucederam-se no poder o Califado Omíada (661-750) e o Califado Abássida (750-1299), este último com capital em Bagdá, no período que ficou conhecido como Idade de Ouro Islâmica. A região da antiga Mesopotâmia (atual Iraque), durante o apogeu do Islã, tornou-se o centro cultural do mundo, numa época em que grandes embarcações carregadas de negros escravizados cruzaram os mares.

Entre os séculos VII e IX, navios negreiros pilotados por árabes muçulmanos capturavam na costa leste africana milhares de pessoas, que eram então levadas compulsoriamente através do Oceano Índico até o Iraque. Na região de Basra, os negros tornaram-se, sob olhar islâmico, os amaldiçoados filhos de Cam: condenados pelos árabes a servirem como escravos nas grandes plantações e no manejo das terras alagadas, sob o calor inclemente e o sol escaldante. O inferno no paraíso. Este mesmo tipo de argumento bíblico também foi utilizado pelos colonizadores europeus para justificar a escravidão na América.

basra02Como na Roma Antiga, os escravizados de Baçorá foram protagonistas de grandes revoltas no período, sendo a principal delas a Rebelião Zanje. Como os negros eram oriundos de uma região conhecida pelos árabes como Zanzibar (que, naquela época, poderia ter se referido a toda costa conhecida da África Negra), o nome Zanje passou a servir-lhes de denominação.

Houve três grandes conflitos prévios entre a população negra escravizada e a sociedade árabe branca, entre os anos de 689, 690 e 694, que não renderam grandes frutos. Mas durante os anos 860, o califado encontrava-se enfraquecido por disputas internas de poder e, entre 869 e 883, os negros tiveram grande êxito em suas lutas de guerrilha nos rios, alagados e cidades do sul do Iraque, impelindo o exército abássida a retrair-se para o norte e criando sua própria capital no sul, al-Mukhtarah.

basra01A escravidão foi oficialmente abolida no séc. XX no Iraque, porém ainda persiste o inferno negro no suposto paraíso. Embora os árabes iraquianos neguem qualquer discriminação, a população negra do país – em sua grande maioria islamizada – continua na prática sem acesso a educação, que leva ao subemprego ou à mendicância, e vice-versa. Além disto, o casamento inter-racial é extremamente mal visto pela sociedade e, cotidianamente, a população árabe se refere aos negros como “eabd”: escravos.

Após a eleição de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, um início de consciência fraterna entre os negros parece ter surgido no Iraque. A comunidade afrodescendente do país muçulmano alcança, entre algumas fontes, entre 1,5 e 2 milhões de pessoas (aproximadamente 5% da população total da nação), que reivindicam melhor acesso à educação, leis anti-discriminatórias, representatividade no parlamento e políticas afirmativas, aos moldes norte-americanos. Mas a resistência que encontram em um Estado dilacerado por guerras fratricidas é enorme.

To match feature IRAQ/BLACKS

Para além da árdua tarefa de reconhecerem-se a si próprios numa sociedade que não os acolhe – seja por preconceito racial, cultural ou religioso – os negros iraquianos fazem lembrar ao Ocidente a dimensão absurda e nefasta da imigração forçada de africanos para fins escravagistas (a chamada Diáspora Africana), que ocorreu não apenas na América Colonial, mas também no Mundo Islâmico durante praticamente toda a Idade Média.

Quantas milhões de vidas negras foram ceifadas nas plantações do Oriente Médio por mais de 1 milênio, seja no período dos Califas, seja durante o Império Otomano? É difícil afirmar com precisão. Infelizmente, nós humanos temos o poder de transformar o paraíso num calabouço infernal. Mas também estamos capacitados para promover o oposto disto. O que resta é o desejo de que tal ultraje contra a humanidade jamais se repita.

FONTES RECOMENDADAS:

View story at Medium.com

https://minorityrights.org/minorities/black-iraqis/

http://www.ipsnews.net/2011/10/to-be-black-in-iraq/

http://www.afropedea.org/afro-iraqi

Tiago Masutti – Licenciado em História pela Uniasselvi (2015); pós-graduando em História Cultural pela Claretiano (2019). Autor do artigo acadêmico Pratos Limpos. Corroteirista do curta-metragem Noite. Editor e colunista do Centopeia. Podcaster e apresentador do Centopeia TV. Escritor do e-Book de contos O Cigarro tinha gosto de Beijo. Vencedor Prêmio Miró Literatura (2014) e Prêmio Wattys (2018), este último pelo romance Flores e Fúrias, disponível na Amazon.